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Autossabotagem: Um inimigo dentro de nós

“Quando se olha muito tempo para um abismo, o abismo também olha para dentro de você”.
Friedrich Nietzsche

A enigmática frase acima, dita pelo genial filósofo alemão Nietzsche (1844 -1900) para muitos, pode representar um surto psicótico. Mas, se interpretarmos de forma simbólica, o abismo pode significar a desesperança – o fim da linha, a queda anunciada – e olhar muito tempo para ele seria então alimentar-se de desesperança, do sofrimento propriamente dito. Olhar de volta talvez não fosse mais uma das loucuras de Nietzsche (“se minhas loucuras tivessem explicações, não seriam loucuras”), mas sim, a representação de como o sofrimento é sedutor e quão difícil é se libertar dele.
É fato que o sofrimento é algo fascinante; a mitologia grega, o romantismo, grandes produções pós-apocalípticas e a dramaturgia são um exemplo claro dessa afirmação. Indiscutivelmente a humanidade não sabe lidar com o sucesso; impérios foram derrubados pela veneração à guerra. Querer mais, quando já se tem tudo? Estar no topo da cadeia alimentar e mesmo assim querer mais e mais, a ponto de correr o risco de esgotar todos os recursos naturais? A humanidade é algoz e na mesma velocidade que ‘evolui’, se consome. O também filósofo alemão Georg Hegel (1770 – 1831) ao firmar o terceiro tempo da dialética* – a síntese – aponta que toda civilização traz em si os germes de sua destruição: “O ser de uma coisa finita é trazer em si o germe de sua destruição, a hora do seu nascimento é também a hora da sua morte”.
Portanto, esse conflito épico não é exclusividade da nossa civilização, uma vez que também está presente no nosso mundo interior (psique). A autossabotagem é natural ao homem: assim como temos pulsão de vida (autopreservação), temos pulsão de morte (tendência à destruição), um conflito necessário à vida (princípio do prazer**), mas que por muitas vezes é sorrateiro e cruel, por viver à sombra do ego e à luz do inconsciente – a verdade que não vemos, o passado que nos assombra.
Neuroses como comportamentos obsessivos e compulsivos, autoflagelação, pensamentos persecutórios, mania, depressão, entre outros, são representações claras de autossabotagem, mas, também pode ser algo muito mais sútil – quase imperceptível – impedindo o seu sucesso e desenvolvimento biopsicossociocultural.
Quem já não ouviu a frase: “tenho o dedinho podre…”; escolhemos errado porque, por algum motivo não queremos que dê certo. Ou então, alguém que se prepara muito para uma prova e não a realiza, por perder a hora ou por ficar doente no dia (somatização). E no trabalho, querer tanto uma promoção e falar algo que não devia na hora e no lugar errados, como, por exemplo, em momentos de confraternização ou nas festas de final de ano. Muitas vezes, nos autossabotamos e nem percebemos e ainda dizemos: “não tenho sorte”!
Diante disso, ressalta-se a importância da Psicanálise, pois o processo analítico tem como principal objetivo trazer à tona o inconsciente do sujeito, não somente a sua pulsão de vida como também sua pulsão de morte. E isso não é para trazer mais sofrimento e angústia para o indivíduo, mas é por um motivo legítimo: só é possível alcançar a nossa realização pessoal (amor próprio) se conhecermos essas pulsões opostas que nos permeiam e governam, por serem elas as principais causadoras de nossos conflitos interno e externos.

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Recentemente a frase foi citada por Luana Piovani no papel de Vera (Psicóloga Forense) em uma cena na série Dupla Identidade. Mais uma vez, a frase Nietzsche é associada à “loucura”.

* Tese: afirmação geral sobre o ser; Antítese: Constitui a negação da tese; Síntese: superação das anteriores.

** satisfação imediata, buscar o prazer e evitar a dor.

Mauricio Cardoso Souza
Psicólogo / Psicanalista – CRP: 06/ 81700
Rua Atílio Lanfranchi, 661 – Alto de Fátima – Itatiba/ SP
Com.: (11) 4534 1356/ 4524 8854

 

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